O capitalismo atual é incapaz de entregar o que promete

06 de Fevereiro de 2018

 

Agência DIAP. Como diz Benjamin, o presente aglutina o que foi conquistado pelas lutas sociais e a descoberta de novas chances para ação humana coletiva.

Luiz Gonzaga Belluzzo*

Na primeira edição do ano de Carta Capital, assaltaram-me dúvidas nada cartesianas. Peço vênia, diria o ministro Barroso, para me embrenhar na selva das dúvidas prosaicas. Dúvidas que assaltam os mortais mergulhados nas agruras da sociedade dos desiguais.

O jornal Valor publicou na última quarta-feira uma pesquisa qualitativa que colheu as visões das classes C e D a respeito, entre outras indagações, do governo Temer e das intenções de voto nas eleições de 2018. As opiniões do povo “populista” repudiam veementemente o governo do presidente Temer: “É percebido como um político fraco, egoísta, corrupto, sujo e tomador de medidas impopulares”.

Os populistas populares reafirmam a preferência por Lula, a despeito de referências inconformadas à política e aos políticos. A inegável melhora das condições concretas de vida na era Lula empurra os cidadãos menos favorecidos para o voto no ex-presidente: “Avaliações sobre o governo Lula são positivas, mas mesmo simpatizantes dizem que o petista ‘não é santo’”.

As opiniões exaradas na pesquisa brasileira repercutem o fenômeno dos movimentos anti-establishment nos Estados Unidos e na Europa. Yanis Varoufakis escreveu no Project Syndicate artigo certeiro sobre os desacertos do pensamento social dominante, o “pensamento das elites”.

Diz Varoufakis que, em ambos os lados do Atlântico, a emergência do “paroquialismo militante” (o nacionalismo estreito e reacionário) tem sido investigada de todos os ângulos possíveis: psicanalítico, cultural, antropológico, estético e, naturalmente, sob a ótica identitária.

“O único ângulo que permanece largamente inexplorado, crucial para a compreensão do que está ocorrendo, é a incessante guerra de classes deflagrada contra os pobres, desde o fim dos anos 70.”

Varoufakis continua: os dados do Federal Reserve informam que, nos Estados Unidos, mais da metade das famílias não se qualifica para obter um empréstimo de 12.825 dólares com o propósito de adquirir um Nissan Versa. Enquanto isso, na Inglaterra, mais de 40% das famílias dependem dos recursos públicos dos bank foods para prover sua alimentação e cobrir as necessidades básicas.

Na Alemanha, explica Le Monde Diplomatique, depois da reforma trabalhista, o baixo desemprego convive com a generalização do trabalho precário, produzindo em massa o fenômeno dos working poors.

Em sua configuração atual, o capitalismo escancara a incapacidade de entregar o que promete aos cidadãos. A exclusão manifesta-se no desemprego dos jovens, no desemprego estrutural promovido pela transformação tecnológica e pela migração da manufatura para as regiões de baixos salários.

Os cidadãos brasileiros das classes C e D compreendem à sua moda as contraposições que os bacanas não entendem, aprisionados no “mundo das ideias”. Uma subespécie de platonismo après la lettre. É desnecessário relembrar o leitor de Carta Capital que Platão chamou de Mundo das Ideias o imutável, eterno e “real” em oposição ao Mundo Sensível, em que os objetos são passageiros, caracterizados pela mutabilidade e ilusório.

Sou obrigado a me socorrer de Herbert Marcuse em seu ensaio Heideggerian Marxism: “Os problemas filosóficos relativos à verdade também têm ‘história’, não no mero sentido factual de sua produção na ‘história’, mas sobretudo no sentido essencial de que estão ancorados nas condições concretas de existência histórica e só ganham significado a partir dessa perspectiva”.

O tempo histórico do Ser Social não admite as patetadas do positivismo de lavanderia, tão ao gosto de certos analistas brasileiros, à esquerda ou à direita.

Nas Teses Sobre a História, Walter Benjamin rebelava-se contra as versões social-evolucionistas do pensamento de esquerda. Essas filosofias da história pretendem congelar a imagem “eterna” do passado, enquanto o presente se transforma apenas num ponto de passagem para o futuro.

O futuro é projetado como uma ponte que atravessa um tempo homogêneo e vazio: o progresso está lá, irremediavelmente à espera de ser desvendado pela Razão.

Na contramão, Benjamin argumenta que o presente é o ponto de aglutinação entre o que foi conquistado no passado pelas lutas sociais e a incessante descoberta de novas possibilidades pela ação humana coletiva. Nada está garantido.

No Brasil de hoje, a ansiedade para esconder as Verdades da Existência que emergem do conflito social gerou um fenômeno peculiar, o “radicalismo de centro”, como bem observou o jornalista Luis Nassif. Os intelectuais do establishment contorcem argumentos para negar o que as pesquisas de opinião quantitativas e qualitativas demonstram à saciedade.

(*) Economista e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Faculdade de Campinas.

Publicado em Sexta, 26 Janeiro 2018 19:16

 



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